terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ASPARGO DO MAR PODE REVOLUCIONAR A AGRICULTURA NO ORIENTE MÉDIO

Um planta salgada e crocante, chamada aspargo do mar pelos chefes de cozinha, poderia revolucionar a agricultura do Oriente Médio, pois serve de alimento, forragem e combustível, e seu cultivo não exige uma única gota de água doce.

A salicornia – ou aspargo do mar – é uma planta suculenta que cresce com água doce ou salgada e que tradicionalmente é uma delícia servida em diversos pratos. Com o aumento dos preços da energia e maior preocupação com o aquecimento global, esta halófita, planta tolerante aos sais, começa a ser muito apreciada por suas outras propriedades.

As sementes de salicornia contêm 30% de seu peso em óleo, quase o dobro da soja, e podem ser colhidas e prensadas para extração e uso na cozinha ou para produzir combustível, que pode ser usado em aviões, segundo pesquisadores da Universidade do Arizona, dos Estados Unidos. Os 70% restantes da biomassa da semente da salicornia servem como alimento protéico para o gado. Os talos servem como forragem ou material de construção.

“A salicornia pode dar uma nova dimensão à agricultura”, insistiu Hassan el-Shaer, presidente da Sociedade Internacional para a Utilização de Halófitas (Ishu). “A planta pode ser cultivada intensivamente e irrigada em solo muito salino para a agricultura tradicional”, acrescentou. As consequências que esse tipo de cultivo trariam para o Oriente Médio são surpreendentes. Com espécies tolerantes aos sais, pode-se utilizar milhões de hectares de terras áridas e improdutivas e conservar os valiosos recursos de água doce, além de gerar recursos materiais e econômicos para as populações locais.

Entretanto, antes que isso seja uma realidade, deve-se testar sua viabilidade comercial. Até agora, os testes não tiveram bons resultados. A Companhia Árabe de Tecnologia de Água Salina (Behar) criou um projeto de 300 hectares na costa setentrional da Arábia Saudita em 1993, que consistiu em irrigar a salicornia com água do mar para produzir óleo vegetal e forragem. Além disso, implantou um cultivo experimental que utilizou a aquicultura para cultivo de salicornia e produção de camarões, peixes e sementes para extrair óleo e alimento para o gado.

As fazendas funcionaram vários anos, mas fecharam devido à pouca demanda que havia na época, disse o presidente da Behar, Adil Bushanak. Porém, nos últimos anos, a demanda aumentou porque os governos e o setor industrial buscam fontes de energia que liberem pouco dióxido de carbono e não disputem água e terras com os cultivos de alimentos. Há projetos comerciais, incluindo um que já está em operação no México, dedicados ao cultivo de salicornia como matéria-prima para produzir combustível destinado à aviação.

O Instituto Masdar de Ciência e Tecnologia, dos Emirados Árabes Unidos, a empresa UOP, da norte-americana Honeywell, e as empresas de aviação Boeing. dos Estados Unidos, e a Etihad, dos Emirados Árabes Unidos, estabeleceram um acordo, em janeiro, para um projeto de cultivo da salicornia nesse país do Golfo, a fim de produzir agrocombustível para aviões. A iniciativa compreende um ecossistema de lagoas com peixes, campos de salicornia e mangues.

“Todo o projeto é um sistema integrado onde os desperdícios de um processo se tornam insumos do outro”, disse Scott Kennedy, professor-adjunto do Instituto Masdar. “Os peixes e camarões cultivados em tanques produzem fertilizantes orgânicos para os cultivos de salicornia, irrigadas com água salgada. O que escorre desses campos nutrirá os mangues, que, por sua vez, serão o hábitat de pequenos peixes”, explicou. A aquicultura integrada com água do mar será aplicada de forma experimental numa área de 200 hectares de uma planície salgada perto de Abu Dhabi.

Espera-se que a produção comercial comece dentro de cinco anos, disse Kennedy à IPS. Será produzido combustível para aviões a partir do óleo de salicornia e as folhas serão usadas como forragem para o gado ou queimadas para gerar eletricidade. O principal aspecto do sistema integrado é que, ao menos na teoria, compensará as emissões de dióxido de carbono. “Os mangues são um reservatório permanente que sequestra dióxido de carbono. Armazenam o gás da atmosfera na medida em que crescem e compensam o que é gerado pela queima de agrocombustíveis”.

O Parque Tecnológico e Científico do Catar e as empresas petroleiras e de aviação desse país anunciaram projeto semelhante para desenvolver agrocombustíveis de forma “sustentável e viável do ponto de vista econômico” para a indústria da aviação. O grupo empresarial não informou qual será a matéria-prima empregada, mas estaria investigando o cultivo de salicornia. O presidente da Ishu espera que o interesse comercial pela salicornia para a produção de agrocombustíveis contribua para o desenvolvimento de regiões costeiras do Oriente Médio, onde não é viável a agricultura tradicional.

El-Saher também elaborou uma proposta para cultivo da halófita na península do Sinai, onde a salinidade do solo é um dos maiores obstáculos para a agricultura. “As camadas subterrâneas de água dessa região são muito salobras e não servem para o cultivo tradicional”, afirmou. “Explorar espécies como a salicornia permitirá que os beduínos da península do Sinai produzam óleo de cozinha ou para a indústria e a energia” a partir de produtos orgânicos, disse El-Saher. “Também poderão empregar os produtos secundários da extração do óleo para alimentar o gado, em lugar de levá-lo do Vale do Nilo, o que é muito mais caro”, acrescentou.

Inclusive, parte da colheita poderia ser exportada para a Europa, onde a salicornia, é uma delícia da alta gastronomia. Outros projetos semelhantes podem servir para reverdecer os desertos do mundo e melhorar a qualidade de vida de algumas das comunidades mais pobres, disse El-Saher. “A salicornia é um cultivo muito promissor. Realmente, é a esperança do mundo”, assegurou.

IPS/Envolverde

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