sábado, 9 de fevereiro de 2013

ROBSON CÉSAR CORREIA DE MENDONÇA BICICLOTECA



Foi em uma vitrine que Robson César Correia de Mendonça se deparou com a maior dor de sua vida. Vagando pelas ruas de São Paulo, deteve-se por um momento em frente a uma loja para assistir na TV ao noticiário que falava de um acidente, na estrada para Juazeiro do Norte (CE). Uma família gaúcha dizimada. A sua.

Dois anos antes, ele deixara em sua cidade natal, Alegrete (RS), onde era pecuarista, para tentar construir uma história na metrópole paulista. A mulher e os dois filhos -um casal- viriam depois, quando já estivesse devidamente instalado. Carregara consigo uma quantia que hoje equivaleria a cerca de R$ 200 mil, provenientes da venda de uma propriedade e alguns animais, e o propósito de estabelecer um negócio próprio -"comprar um prediozinho, montar um restaurante, começar uma vida nova".

Logo que desembarcou no Terminal Rodoviário do Tietê, há 12 anos, Robson, então com 50 anos de idade, diz ter sido vítima de um sequestro. "Da rodoviária, vendo todo o dinheiro que eu tinha, eles me levaram até o vale do Anhangabaú, onde fizeram um documento falso de aposentado por invalidez, usado para sacar mais no banco."

Destituído de qualquer pertence, passou a perambular pelo centro da cidade e a dormir na praça da Sé. Desorientado, não conseguiu mais contato com a família. "Tentei entrar na Câmara [Municipal de São Paulo] para dar um telefonema, mas fui proibido por ser morador de rua."

Foi levado para um albergue em Santo Amaro, na zona sul, do qual retornou para a região da praça da República para vender picolés e procurar a quadrilha que o havia sequestrado. Ele a descobriu, mas "ficou no dito pelo não dito, eles não foram presos nem nada".

Ao tomar conhecimento do acidente, que interrompeu o sonho de sua mulher de conhecer a cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, entrou em depressão. Para fugir da "loucura total" e da droga e em busca de alguma dignidade para os moradores de rua, que via serem tratados "como bichos", conta que se apegou à leitura.

Marcou-o especialmente o livro "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, que encontrou em uma minibiblioteca de um albergue no Brás. O título da obra chamou a sua atenção. "Comecei a pensar que, se os animais são capazes de mudar suas vidas, por que nós, que somos animais racionais, não podemos mudar?".

Em 2000, criou, com alguns companheiros, o Movimento de Pessoas em Situação de Rua, para defender os interesses dessa população. "Brigar" na Assembleia Legislativa e no Ministério Público fazia parte de suas atribuições. Nessa época, sustentava-se com a venda de materiais reciclados. "Quando comecei a viver totalmente do movimento, só tomava café de manhã e comia à noite, mas nem sempre", lembra.

A comunhão com as letras se dava principalmente na biblioteca Mário de Andrade, na região central. Assíduo frequentador da instituição e sabido por seu caráter engajado -a essa altura, já tomava parte de ações de inclusão social da Agenda 21-, foi convidado para plantar uma árvore nos jardins do lugar.

Nesse dia, sua trajetória se cruzou com a do empreendedor Lincoln Paiva, dono de uma consultoria voltada para projetos de mobilidade urbana, a Green Mobility. Paiva enxergou no desejo de Robson de "contaminar" outros moradores de rua com a literatura a possibilidade de desenvolver uma ação social.

Bicicloteca leva literatura para as ruas de São Paulo
Robson diz que o livro que mais o marcou foi "A Revolução dos Bichos", de George Orwell. "Comecei a pensar que, se os animais são capazes de mudar suas vidas, por que nós, que somos animais racionais, não podemos mudar?"

Robson comentou com Paiva que, se pudesse, levaria livros pelas ruas para que as pessoas com acesso restrito a eles também pudessem descobrir novas motivações através das páginas - e sem sofrer preconceito. "Na biblioteca Mário de Andrade, as pessoas mudavam de mesa quando eu me sentava", recorda.

Se pudesse, disse a Paiva, carregaria os volumes em um carrinho de mão e os distribuiria para os habitantes das ruas. Paiva, um voraz fabricante de ideias -não é à toa que, por muitos anos, foi um conceituado profissional do mercado publicitário-, concluiu que a mensagem estava ali, mas o meio -de transporte, no caso- poderia ser aprimorado. Nasceu então o projeto da bicicloteca.

A partir do conceito de biblioteca itinerante, foi desenhado e construído um triciclo com um baú acoplado, com capacidade para 300 volumes. O objetivo era emprestá-los a qualquer pessoa -e não só a quem vivesse nas ruas- que se interessasse em lê-los, sem burocracia e sem que precisassem ser devolvidos. Robson seria o condutor do veículo e do projeto.

Depois de circular por três meses, a primeira bicicloteca foi roubada por um viciado em crack. Robson vivia assim outra grande dor, mas, dessa vez, havia muito o que fazer. Ele passou uma noite em claro na busca de pistas que o levassem ao paradeiro do triciclo. A investigação foi parar nas redes sociais; um vídeo da saga, produzido por Paiva, foi visto por mais de 100 mil pessoas na internet. A mídia se interessou pelo tema, que foi assunto até na BBC e no jornal francês Le Monde.

A bicicloteca foi recuperada. O projeto atraiu empresas que financiaram um modelo elétrico, com acesso à internet e placa solar. No último ano, foram emprestados 107 mil livros, 60% deles para pessoas em situação de rua, 20% para estudantes e 20% para a população em geral.

Em um final de semana de cada mês, Robson e Lincoln organizam, com a bicicloteca, um passeio gratuito por pontos do centro de São Paulo que representam episódios significativos da história literária brasileira. Integram o itinerário, por exemplo, o local em que nasceu Álvares de Azevedo, a biblioteca onde Euclides da Cunha fez a primeira leitura de "Os Sertões" e um prédio em que morou Monteiro Lobato.

Há quatro anos Robson mora em uma pensão. Luta por sua causa e contra um câncer que levou boa parte de um de seus pulmões. Seu trabalho de disseminar a cultura é patrocinado por um escritório de advocacia. E, não por acaso, diz que hoje é chamado pela polícia de "advogado dos mendigos".

"Eu procurei estudar e aprendi muitas leis, a lei do morador de rua, seus direitos constitucionais. Isso me ajudou a entender o ser humano que está na rua, tanto que, quando prendi o cara que me roubou a primeira bicicloteca, disse ao delegado que não o mandasse para um presídio, mas que o internasse para tratamento contra o vício em droga."

Em defesa da ideia de que morador de rua não é bicho, Robson fez sua própria revolução -uma espécie de vitrine para que outras vidas enxerguem novas chances de dizimar suas dores.

Edson Valente
Jornal Folha de São Paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário