domingo, 23 de setembro de 2012

DNA PODE ENFRENTAR O TRÁFICO DE CRIANÇAS

O médico espanhol José Antonio Lorente, criador de um
banco de DNA para meninos e meninas desaparecidos

Folha - Quando e por que decidiu criar a DNA-Prokids? Tive a ideia entre 2002 e 2004, enquanto visitava países na América Latina e na Ásia e percebi que ninguém estava fazendo nada para identificar crianças desaparecidas. A DNA-Prokids surgiu depois de uma visita ao Peru, em 2004, e começou a funcionar como projeto-piloto na Guatemala, no mesmo ano.

O programa é similar em todos os países? A metodologia é idêntica, mas temos diferenças nas autoridades com que lidamos. Isso varia de acordo com o país, e vai da polícia a universidades federais, passando por laboratórios de ministérios da Justiça e de procuradorias-gerais. Em todos os casos, são laboratórios públicos, estaduais ou nacionais.

E como funciona? Nós apenas ajudamos e apoiamos os países a criar e gerar esses bancos de dados com DNA, que sempre é nacional. Não somos donos dos dados. Oferecemos a tecnologia para que sejam gerados bancos de dados de DNA de pais que perderam seus filhos. Assim, quando as crianças forem encontradas, pode-se cruzar essas informações, mesmo depois de anos do desaparecimento.

Como seu programa auxilia a combater o tráfico internacional de menores de idade?  A principal razão para que crianças e adolescentes sejam facilmente explorados é que eles não são corretamente identificados. Eles não sabem, ou mal sabem, quem são, de onde vieram. Enquanto crianças, contam com atenção muito limitada das autoridades, sendo facilmente sequestradas e vendidas para exploração sexual, mendicância e trabalho em condições precárias.

Quando crescem, longe de suas cidades, famílias e pessoas que lhes dão amor, caem de forma muito fácil em organizações criminosas, ligadas à prostituição, drogas etc.

Se pudéssemos parar esse processo ainda em seus estágios iniciais, se pudéssemos saber quem são essas crianças, isso ajudaria muito no futuro. Não estou sonhando e pensando que o DNA pode resolver a questão do tráfico de menores, mas evitaríamos muitos casos e dificultaríamos bastante a atuação dos traficantes.

De que maneira a genética deve ser usada em casos de adoção?
Ela poderia ajudar muito. Há diversas crianças que são deixadas para adoção sem que haja a comprovação de que a mulher que entrega a criança é, de fato, sua mãe biológica.

Assim, em muitos países as crianças são roubadas e entregues a jovens mulheres que não são mães desses bebês, mas que dizem que são e alegam não ter recursos para alimentá-los porque têm outros filhos para criar.

Uma vez que o bebê é entregue, e isso se torna uma adoção legal, a mãe pode receber de US$ 1 mil a US$ 3 mil para ajudá-la a sustentar o restante da família. Isso se tornou um tipo de negócio.

Por outro lado, temos adoções ilegais: famílias ricas da Europa, dos EUA, do Brasil e de outros lugares que não querem esperar por anos para ter um bebê, e querem escolher sua idade, sexo, fenótipo... Eles entram em contato com organizações criminosas que oferecem bebês roubados, e depois criam documentos falsos.

Isso poderia ser evitado se uma identificação genética fosse requerida em todos os casos. Uma criança sem DNA cadastrado não deveria ser adotada, porque poderíamos entregá-la para adoção enquanto a família ainda está buscando saber onde está.

Há exemplos de países bem-sucedidos no combate à adoção ilegal?
Devo mencionar a Guatemala, que é o único país no mundo que aprovou, em 2010, legislação específica para coordenar esforços de identificação de crianças desaparecidas. Essa é a primeira lei que obriga as autoridades a analisar o DNA de menores e compará-los com o banco de dados. Seria ótimo que outros países aprovassem legislação similar.

Como estão as negociações para implementar o DNA-Prokids no Brasil?  Estamos próximos disso. Já mantivemos contato com a Polícia Federal e com uma série de Estados, dos quais o mais avançado é a Paraíba. Planejo uma visita a Brasília e à Paraíba, possivelmente ainda neste ano, e devo encontrar representantes do Ministério da Justiça e da Comissão de Direitos Humanos.

Também há contatos com outros Estados, e estou muito animado e ansioso para iniciar o programa no país. A professora Gilka Gattas, da USP, tem um programa chamado Caminho de Volta, focado em São Paulo, e colaboramos em algumas coisas. Já estive com ela na cidade, e a convidei para vir a Granada. Espero colaborar de forma ainda mais próxima quando os Estados implementarem as parcerias com a fundação DNA-Prokids.

O que o senhor guarda de seu período no FBI? Foi ótimo. Era um médico, vindo de uma família de médicos, que de repente ingressava na catedral da investigação criminal. As pessoas me chamavam de "doc" (abreviação de doutor) e me consultavam sobre seus problemas de saúde.

Aprendi muitas coisas, mas duas seguem até hoje. A primeira é a de me manter em forma e praticar esportes diariamente, o "mens sana in corpore sano" (mente sã em corpo são). A outra é trabalhar sempre em equipe, discutir tudo e sempre opinar sobre um assunto, mesmo que você pense que aquilo é loucura ou bobagem. Não descarte alternativas, discuta-as e abra sua mente.

Jornal Folha de São Paulo

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